• Instagram

O lápis e o facão

Em 23/10/2017

IMG_4527-2

Francisco Gonçalves da Conceição*

O facão era o meu lápis e a roça o meu caderno de caligrafia. Essa era e é a realidade de muitos brasileiros e brasileiras que não tiveram a oportunidade de frequentar a escola e aprender a ler e a escrever. Mas, esta sina muitas vezes mal contada não é obra de Deus ou da preguiça, como alguns preferem descrever a vida do trabalhador e da trabalhadora rural. Para quem teve e tem o facão como lápis e a roça como caderno de caligrafia o que nunca faltou foi disposição de conhecer os desejos da terra e fecundar o chão, como bem registrou o compositor e cantor Chico Buarque, na canção O Cio da Terra.

O analfabetismo também não é obra de Deus, porque senão o seu nome seria outro e o seu outro nome não seria Amor; é um dos sintomas mais expressivos e perversos do ensopado sociocultural produzido pela mistura refinada entre a escravidão, o patrimonialismo e o clientelismo, que ainda hoje ordena relações políticas e econômicas no país, estabelecendo a ordem de classificação de indivíduos, definindo uma hierarquia de acesso a bens materiais e espirituais da humanidade e transformando pessoas em  afilhadas de benfeitores, o que projeta os segundos e humilha as primeiras.

 Uma das raras ocasiões em que a pessoa analfabeta foi reconhecida como cidadã, no Brasil, deu origem a um paradoxo. Embora a nova Constituição tenha reconhecido o direito de voto da pessoa analfabeta, incorporando ao processo democrático milhões de brasileiros e brasileiras excluídas da vida pública, essa pessoa para votar precisava saber ler e escrever, dando origem às famosas “colas”. A legislação eleitoral não levou em conta a condição de eleitor da pessoa analfabeta, o que começou a mudar timidamente com a urna eletrônica e a foto do candidato e da candidata na tela da mesma.

A exemplo da incorporação do analfabeto e da analfabeta ao jogo eleitoral, o enfrentamento do analfabetismo seguiu o fogo lento das tensões de inclusão/exclusão que marcam a formulação e execução de políticas públicas na moderna democracia brasileira. A maioria das pessoas analfabetas são jovens e adultos que vivem nos campos, florestas e águas e conhecem os segredos das terras, plantas e rios. Embora desconheçam o segredo das palavras desenhadas no caderno de caligrafia, reconhecem a educação como a principal forma de libertação de sua difícil condição de vida.

Como perguntaria Daenerys Targaryen é possível quebrar a roda, que gira esmagando aqueles que estão no chão? É possível desde que a solução não seja a mãe dos dragões. E aquele que corre o risco de ser esmagado seja ator e coautor da solução do problema, como a Jornada de Alfabetização Sim, Eu Posso, que mobiliza e organiza os que foram excluídos do processo escolar em redes de solidariedade. Hoje, em 15 dos municípios mais pobres do Estado, 1.342 turmas reúnem 18.201 alunos, em escolas, igrejas, sindicatos, no maior mutirão de enfrentamento do analfabetismo.

O método – de origem cubana e adotado em vários países do continente latino-americano – , ganhou características próprias no Brasil, com a incorporação das contribuições de Paulo Freire. Em execução no Maranhão, a partir de uma parceria entre o Governo do Estado e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o Sim, Eu Posso não visa apenas ensinar o aluno e a aluna a reconhecer e a combinar letras e números, mas sobretudo contribuir para que se adonem de novos códigos de leitura e interpretação do mundo, enriquecendo sua experiência de vida.

Como demonstra a primeira etapa da Jornada de Alfabetização Sim, Eu Posso, uma das ações do Plano Mais IDH e realizada inicialmente em sete dos municípios mais pobres do Estado, a erradicação e a construção de territórios livres do analfabetismo implicam na articulação de redes de políticas públicas, como educação e saúde, direitos humanos. Os alunos matriculados em 2016 nas turmas do Sim, Eu Posso tiveram acesso a consultas oftalmológicas, a óculos e a documentação civil. Os alfabetizadores passaram por um processo prévio de formação. A mesma estratégia foi adotada na segunda fase.

Em 2016, quando os alunos e as alunas do Sim, Eu Posso aprenderam a ler e a escrever, enviaram centenas de cartas ao governador Flávio Dino pedindo duas coisas. A primeira, que o governo do Estado possibilitasse a troca das carteiras de identidade; e a segunda que o governo incentivasse e apoiasse as prefeituras municipais a oferecer turmas de Educação de Jovens e Adultos (EJA). Para além da troca de carteiras, o ato simbolizou a afirmação de novas identidades, de sujeitos que passaram a tecer outras narrativas pelas quais o lápis e o facão ganharam novos significados.  

___________________________________________________________________

Francisco Gonçalves da Conceição, professor da UFMA, secretário de Estado dos Direitos Humanos e Participação Popular e coordenador executivo do Plano Mais IDH.

Endereço:

Av. Jerônimo de Albuquerque, S/N, 2º Andar, Bloco A, Edifício Clodomir Milet,
Calhau- São -Luís/MA. CEP: 65074-220

Telefone: (98) 3256-5330

Desenvolvimento © SEATI | www.seati.ma.gov.br