Em defesa da memória de Rui Frazão
Por Danielle Pereira
Hoje, 31 de março, rememoramos os 57 anos de um dia que resultou no mais violento ataque à democracia. Ao contrário de algumas autoridades, que comemoram os anos de chumbo, estamos aqui hoje para rememorar, pois como disse o cardeal da esperança, Dom Paulo Evaristo Arns: “Pra que não se esqueça, pra que nunca mais aconteça”, e é a partir desta afirmação, que inicio esta fala!
57 anos após o golpe civil militar, nos vemos em um contexto que mesmo quem não viveu àquela época, consegue mensurar o que significa a importância da defesa da democracia, frente a um panorama em que se estabelece constante e agressiva ameaça à soberania popular, com um governo afeito e saudosista àquela época, em que prevalecia a tortura, a perseguição, o silenciamento e total desrespeito aos direitos humanos. Diante disso, reafirma-se a necessidade de relembrar o que significou aquele período que teoricamente durou 21 anos, uma vez que muitas práticas perduram como negativa herança.
Assim como hoje temos muitos nomes que se levantam contra os abusos de um governo que tem praticamente, permeada em toda sua base, militares, nomes como Marielle, que até hoje cobramos respostas sobre a autoria de seu assassinato, durante o regime militar instaurado em 1964 muitos nomes em todo Brasil, foram revelados. Fechando esse recorte para solo maranhense, como não falar em Maria Aragão, Manoel da Conceição, exaustivamente torturados por aquele sistema opressor?
Outro nome a ser lembrado, e jamais esquecido, é o de Rui Frazão, maranhense, estudante do Liceu Maranhense, onde enquanto secundarista, já denunciava as condições de trabalho dos professores. Em 1961, muda-se para Recife, onde ingressou na faculdade de engenharia, católico praticante, recebe carinhosamente de seus colegas o apelido de “Papa”. Logo torna-se militante da Juventude Universitária Católica e em seguida, logo de sua criação, ingressa na Ação Popular.
Enquanto ocupava o cargo de representante estudantil, na Congressão da Universidade, foi preso, mantido incomunicável e torturado por liderar um ato de resistência dos estudantes de engenharia. Após sua libertação, Rui foi admitido como bolsista na Universidade de Harvard. Em 1965, ele torna-se o primeiro a denunciar as torturas praticadas pelo governo autoritário no Brasil, na Assembleia das Nações Unidas, em Nova York.
Já no Brasil, com a escalada da repressão, ele assume o nome falso de Luís Antônio e passa a vender artesanato na feira de Petrolina, onde aos 32 anos, no ano de 1974, foi espancado e capturado a mando de um dos maiores algozes do regime militar, o delegado Sérgio Fleury, de assombrosa lembrança.
O corpo de Rui nunca foi encontrado, não teve o merecido sepultamento digno de um homem que não se calou diante de um governo regido pela violência. Entretanto, hoje, no ano de 2021, 57 anos após a implementação daquele estado de opressão, Rui virou semente, semente no peito de cada um que não se inibe diante da atual conjuntura de ameaça à democracia, não se inibe diante das desigualdades sociais, não se inibe diante da violência cometida contra grupos historicamente discriminados e perseguidos.
Pessoas como Rui Frazão, que a história oficial insiste em invisibilizar e silenciar, tiveram grande contribuição para a construção de uma cultura democrática em nosso país, para a implantação de uma cultura de participação popular, para o avanço de políticas públicas, que dentre elas, destaco o SUS, que neste momento, em meio a essa pandemia que já ceifou mais de 310 mil vidas, com uma média de mais de 2.600 mortes por dia, encontra-se alvo de desmonte e ameaçado por um governo que insiste em seguir antigos receituários de opressão e autoritarismos.
A vida e morte de todos que se levantaram lutaram ou, até mesmo, como no caso de Rui Frazão, que ofereceram a própria vida contra aquele sistema pode ser esquecida ou invisibilizada. Enquanto houver enfrentamento às cruezas que tentam se estabelecer nos mais diversos âmbitos, fortaleceremos a memória dessas pessoas, assim como devemos, todos os dias, fazer valer suas lutas.
Quando retornou ao Brasil, Rui não retomou ao curso de engenharia devido aos traumas causados pelas torturas sofridas. Em solenidade da formatura de sua turma, os amigos, em coro uníssono gritaram: Falta Rui, falta Rui!
E neste dia de hoje, finalizo dizendo: RUI PRESENTE!